O prefeito do Recife, João Campos (PSB), parece cada vez mais confortável em transformar sua trajetória política em uma linha do tempo familiar, onde sobrenomes, laços sanguíneos e memórias do passado ocupam o espaço que deveria ser reservado a propostas concretas e resultados administrativos. Nos últimos dias, os sinais são claros: a família virou o principal argumento político.
Em movimentos recentes, João Campos colocou o irmão com deficiência em um debate público, resgatou a imagem do avô Miguel Arraes em discursos estratégicos e voltou a citar de forma recorrente o pai, Eduardo Campos, em entrevistas e falas oficiais. A mensagem implícita parece ser simples: a herança política fala mais alto que o conteúdo. Para muitos analistas, trata-se de uma estratégia emocional, mas também de um atalho perigoso diante da falta de um debate mais profundo sobre o futuro de Pernambuco.
A insistência nesse roteiro — meu pai, minha mãe, meu irmão, meu avô — é vista por setores da opinião pública como um sinal de despreparo político. Em vez de liderar um debate maduro sobre problemas estruturais do Estado, o prefeito aposta na memória afetiva e no capital simbólico da família Campos, como se o passado fosse garantia automática de competência no presente.
O problema é que Pernambuco mudou. A população já não se contenta apenas com discursos bem ensaiados e referências históricas. O eleitor quer saber, por exemplo:
• Como será enfrentada a crise na saúde pública, com hospitais superlotados e filas intermináveis?
• Quais são as propostas reais para a geração de emprego e renda, especialmente no interior do Estado?
• O que será feito para melhorar a segurança pública, que segue como uma das maiores angústias da população?
• Quais ações concretas estão previstas para infraestrutura, mobilidade e desenvolvimento regional, além do Recife?
• Como o Estado será preparado para crescer sem depender apenas de marketing político?
Esse é o debate que o pernambucano quer ouvir. Menos árvore genealógica e mais plano de governo. Menos apelo emocional e mais compromisso técnico. A política estadual exige liderança com visão, coragem para enfrentar problemas reais e capacidade de apresentar soluções viáveis não apenas a repetição de sobrenomes conhecidos.
Ao insistir na política da herança, João Campos corre o risco de transformar sua pré-campanha ao Governo de Pernambuco em um discurso raso, desconectado das urgências do povo. Pernambuco não precisa de um álbum de família. Precisa de propostas, ações e resultados.
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