A possível entrada presencial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na campanha de João Campos (PSB) em Pernambuco passou a ser observada também por setores da direita como uma oportunidade de tensionar uma particularidade do cenário estadual: a existência de eleitores que apoiam Raquel Lyra (PSD) para o Governo e, ao mesmo tempo, Lula para a Presidência — combinação que ficou conhecida como “voto Luquel”.
O dado que sustenta essa discussão é concreto. Pesquisa Datafolha divulgada em 11 de setembro mostrou Raquel com 34% das intenções de voto entre os eleitores que se identificam como petistas. A governadora, por sua vez, tem evitado declarar apoio presidencial e mantém uma estratégia eleitoral que reúne eleitores de diferentes campos políticos.
É justamente aí que está o cálculo político. Uma presença de Lula em Pernambuco exclusivamente no palanque de João Campos poderia obrigar o presidente a tornar mais explícita uma escolha que parte de seu eleitorado pernambucano não reproduz na eleição estadual. Essa possibilidade já vinha sendo considerada pela própria campanha presidencial: no fim de agosto, a CNN informou que a estratégia de Lula era evitar Pernambuco no primeiro turno justamente por haver disputa local por seu apoio.
O cenário mudou. Nesta sexta-feira (18), informações publicadas na imprensa pernambucana apontam que Lula prepara uma agenda no estado para reforçar João Campos, com possibilidade de ato no Recife no próximo dia 25. A senadora Teresa Leitão também confirmou a previsão de uma visita de campanha.
O cálculo da direita
Nesse contexto, a leitura atribuída a setores da direita é que provocar politicamente Lula a vir ao estado pode criar um dilema para sua campanha nacional: fortalecer João Campos é o objetivo do PSB, mas uma entrada mais incisiva na disputa estadual poderia gerar reação entre lulistas que escolheram Raquel para o Governo.
Há precedente recente para essa preocupação. Reportagem do Jornal do Commercio relatou que Lula vinha resistindo à visita e apontou justamente o risco de irritar eleitores identificados com o chamado voto Luquel.
Isso não significa, contudo, que esteja comprovada uma estratégia formal da campanha de Flávio Bolsonaro para provocar a viagem de Lula. Não encontramos confirmação pública da coordenação de Flávio de que exista uma operação deliberada com esse objetivo. Essa interpretação deve, portanto, ser tratada como leitura estratégica de setores políticos, e não como fato estabelecido.
Para João Campos, o cálculo é diferente. Sua campanha vem pressionando pela presença de Lula há semanas e aposta que a popularidade do presidente em Pernambuco pode ajudar a aproximar eleitores do candidato do PSB. Em agosto, dirigentes petistas e aliados de João já defendiam publicamente a participação de Lula em atos no estado.
Assim, uma eventual passagem de Lula por Pernambuco terá dois objetivos políticos distintos em disputa: João tentará transformar a presença presidencial em transferência de votos, enquanto adversários buscarão explorar qualquer desconforto entre Lula e a parcela de seus próprios eleitores que prefere Raquel na eleição estadual. O efeito real dessa movimentação, porém, só poderá ser medido por pesquisas realizadas depois da eventual visita.
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