O prefeito do Recife, João Campos (PSB), passou a enfrentar uma grave controvérsia jurídica e administrativa após a revelação de um possível ato irregular na nomeação de um procurador municipal oriundo de concurso público realizado em 2022. As informações foram divulgadas pelo portal Metrópoles e levantam questionamentos consistentes sobre a legalidade do ato administrativo praticado pelo chefe do Executivo municipal.
De acordo com a reportagem, um candidato originalmente classificado na 63ª colocação da ampla concorrência foi reclassificado, cerca de três anos após a homologação do certame, para a condição de Pessoa com Deficiência (PCD). Com essa reclassificação tardia, o candidato passou automaticamente à primeira colocação da lista específica, sendo posteriormente nomeado por meio de portaria assinada pelo próprio prefeito.
Violação aos princípios da administração pública
Especialistas em Direito Administrativo apontam que o caso pode configurar violação direta aos princípios constitucionais previstos no artigo 37 da Constituição Federal, especialmente os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e isonomia. A reclassificação após a homologação do concurso e fora do prazo ordinário de revisão administrativa compromete a segurança jurídica do certame e fere a igualdade de condições entre os candidatos.
O entendimento majoritário na jurisprudência é de que alterações substanciais na classificação de candidatos somente podem ocorrer dentro das fases regulares do concurso, respeitando prazos, critérios objetivos e ampla publicidade. Qualquer modificação posterior exige decisão judicial expressa e devidamente fundamentada, sem margem para discricionariedade administrativa.
Possível enquadramento na Lei de Improbidade Administrativa
O ato também pode ser analisado sob a ótica da Lei nº 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa), especialmente nos dispositivos que tratam de atos que atentam contra os princípios da administração pública. Caso fique demonstrado que houve favorecimento indevido, desvio de finalidade ou violação consciente das regras do concurso, o gestor pode ser responsabilizado administrativa, civil e politicamente.
Mesmo após as alterações promovidas pela Lei nº 14.230/2021, que exigem a comprovação de dolo específico, juristas avaliam que a assinatura direta da portaria de nomeação pelo prefeito reforça o nexo de responsabilidade, uma vez que o chefe do Executivo é o agente público com competência final para validar o ato.
Responsabilidade política e risco de impeachment
Do ponto de vista político-administrativo, o episódio pode fundamentar pedidos de investigação por parte da Câmara Municipal do Recife. A Lei Orgânica do Município e a legislação que rege os crimes de responsabilidade permitem a abertura de processo de impeachment quando há indícios de infração político-administrativa, especialmente em casos que envolvem afronta à legalidade e à moralidade administrativa.
O entendimento predominante é que, ainda que a Prefeitura alegue cumprimento de decisão judicial, cabe ao gestor comprovar que o ato foi executado de forma estritamente vinculada, sem extrapolar os limites legais ou criar situação de privilégio indevido.
Possíveis desdobramentos institucionais
O caso pode gerar desdobramentos em órgãos de controle, como o Ministério Público, o Tribunal de Contas e o próprio Judiciário, além de repercussão direta no Legislativo municipal. Eventual constatação de irregularidade pode resultar na anulação da nomeação, responsabilização dos agentes envolvidos e abertura de procedimento político-administrativo contra o prefeito.
A situação ocorre em um momento sensível da gestão João Campos, ampliando o desgaste institucional e reforçando questionamentos sobre a condução administrativa do município.
O Portal das Cidades PE segue acompanhando o caso e mantém espaço aberto para manifestação da Prefeitura do Recife e dos demais citados, em respeito ao contraditório e à ampla defesa.
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